sábado, 11 de junho de 2011

Elegia ao primeiro amigo

Vinícius de Moraes


Ao amigo que de qualquer modo eu encontraria.


Seguramente não sou eu
Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história.
É antes uma vontade indizível de te falar docemente
De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura
Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro.
Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos
E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas
Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial.
Seguramente não é a minha forma.
A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia.
É apenas um prenúncio do mistério
Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada...
Vim para ser lembrado
Para ser tocado de emoção, para chorar
Vim para ouvir o mar contigo
Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós
Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã.
Nossos olhos enegreciam lentamente de dor
Nossos corpos duros e insensíveis
Caminhavam léguas - e éramos o mesmo afeto
Para aquele que, entre nós, ferido de beleza
Aquele de rosto de pedra
De mãos assassinas e corpo hermético de mártir
Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar.
Pouco importa que tenha passado, e agora
Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
Ou nunca mais irei, eu
Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva...
Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero como um grande pássaro sem ar.
Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto
Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia
E abrigaste em ti todo o patético?
Não sei o que tenho de te falar assim: sei
Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá
Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer
E eu nada diria de grave; decerto
Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo
Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros...
Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo
Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido:
Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura
Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar.
Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo)
Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis
Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível
(Vá lá por conta da necessária gentileza...)
No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás...
Existo também; de algum lugar
Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes
Escuto vozes ermas
Que me chamam para o silêncio.
Sofro
O horror dos espaços
O pânico do infinito
O tédio das beatitudes.
Sinto
Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços
Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação.
Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra
Uma mulher me vê viver... - perdi o meio da vida
E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar.

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo. Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.

Seguramente não sou eu:
É a tarde, talvez, assim parada
Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo
Quisera poder dizer-te tudo; no entanto
Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar
Uma mulher me vê viver, que me chama; devo
Segui-Ia, porque tal é o meu destino. Seguirei
Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma
Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas
Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim
Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber
Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe
Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa
De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.

Rio de Janeiro, 1943


Fruto de uma conversa de bar com bons amigos
Algumas reflexões sobre o amor.



"Cada ano dediquei-me a alguém
e supus ser diferente - não melhor; apenas novo.
E, assim, quis conhecer a sua vida
e partilhar do seu gostar de.

De cada reconhecimento ficou uma marca:
Houve os dias em que o encanto veio das mãos -
naqueles dias não era o toque,
era o simples manejar dos gizes-de-cera.
Conheci quem eu amasse pela Literatura ou pelo desenho
amei julgando ser os olhos
toda a causa da minha inquietação.

Questionaram-me:
Gosta de mim mais do que já gostou de qualquer outra pessoa?
Oras! São diferentes modos de amar.
Amo pelo encantamento que sinto.
Por que querer Tudo que sinto?
Eu ficaria seca
Sem nenhuma chance de me regenerar e
amar ao menos mais uma vez.

Toda a inconstância do conhecimento
do que nunca havia sentido
dedico-me ainda a isso
em verbo
e substantivo."





"The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and...then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door...and he looked inside
Father, yes son, I want to kill you
Mother...I want to...fuck you.

...


This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end

It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die

This is the end."

The Doors

quinta-feira, 9 de junho de 2011


Poesias in.concretas desses dias



a minha queridíssima amiga a quem nunca me dirigi.




RITA
TRAI
TIRA
ALITERA.
RITA, ELA.




terça-feira, 10 de maio de 2011

Lótus, flor.

"Ave
Perdoa o que eu penso
Ave
Livra-me de meus pensamentos
Ave
Misericórdia da carne
Ave."



Estava às favas com o bom senso, o que mais ainda suportaria? Afinal, quando emergiria da lama escura para ser, de fato, flor?
A primeira vez que entrou no banheiro o fez só para certificar-se de como estava a maquiagem. Sentou-se no vaso e com uma das pernas prendeu a porta para que não fosse importunada em seu momento privado. Com os olhos procurou pelo papel - raramente o encontrava - e, vendo-o no alto da janela, preferiu evitar o contorcionismo para pegá-lo e levantou a calça sem se limpar. Quem saberia?
Enfim o espelho. Olhou-se. Quanta coisa se vê em si... quantas cores tirariam a expressão de angústia da sua carne? Olhos pequenos, lábios claros, rosto pálido e coberto de pó. Abriu a porta.
Um sem número de vozes a envolveu. Cheiro. Gosto. Calor de gente. Riu. A quanto tempo não ia àquele lugar? Desde que decidira assumir aquele relacionamento? Realmente não se lembrava da última vez que desejara sentir 5 sentidos num só.Teria sido a quantos anos seu último choro de riso e calafrios?! Seu corpo envolveu-se num ritmo que já conhecia, ele pulsava ao coro que cantava: Love, love. love... love, love, love... all that you can say, can be said. Explodiu em histeria ao saber que o quarteto de Liverpool ainda reinava ali. Pediu uma cerveja; duas; três. Dançava consigo de olhos fechados e duas mãos cortavam o ar aleatoriamente.
Precisou novamente ir ao banheiro.
O equilíbrio de outrora estava afetado, mas ainda assim lembrou-se de pegar o papel. Dessa vez não foi tão fácil segurar a porta e aliviar-se ao mesmo tempo. Limpou-se. Novamente o espelho - liberto, libertino, libertinagem. Aérea olhou para seus arrependimentos refletidos num círculo. Quatro lances de escada, quanta incoerência, Homem do Céu! A traição viera sem receio algum. Quatro lances de escadas para já ouvir o som do ranger da cama e uns grunhidos animalizados. Grandes bestas! Grandes feras! Ao quê você se deixa submeter? Não havia ela seguido todas as regras e parafernálias do amor ou havia sido sincera cedo demais? Assim sentiu a porta bater em sua bunda com tanta força que xingou pausadamente para também ferir a adolescente semi-nua que também desejara usar o banheiro:
F-I-L-H-A-D-A-P-U-T-A!
Agora um bom rock para algum pop. Gira-mundo, mundo gira. Não mais quer ir ao banheiro - não se organiza o caos do coração - pensa. Pede a um garoto com a camisa da Janis que lhe compre uma dose de qualquer-coisa-que-venha num copo de vidro. Ri da expressão do menino ao ver a cor apastelada de sua nota.
-Compre o que quiser pra você.
Enquanto espera para engolir de uma só vez todo o calor líquido daqueles copos, olha tudo que a cerca. Não seria aquela a sua noite na taverna?! Vê as sombrar projetadas no teto e lembra da voz maternal que a embalava antes de dormir quando seus sonhos cabiam num espaço de 1.5 metros. Sente a mão nos seus ombros. Gela. Quando havia sido tocada pela última vez? São suas doses. O susto e a excitação a fazem virar seus copos todas de uma só vez. Sente-se leve. Tão leve que tocaria as formas do teto e as moldaria ao seu bel -prazer. Free as a bird. Sente uma mão na sua cintura, a bebida não permite que ela gele, mas seu coração bate tão forte que os mais cuidadosos ouviriam o estrondo.
-Sozinha?
Porque Diabos uma cantada soaria de modo tão filosófico? Esse não deveria ser o momento em que ela sorriria e faria qualquer charminho típico para parecer íntegra moralmente? Mas Sozinha ecoa tão dentro.
- Hey, é só a função fática da língua.
- Ok. Eu não tinha pensado em nada diferente disso.
- E qual a sua graça?
- Certamente não é falar com meninos.
- Uol, uol! Alguém aqui não sai há algum tempo.
- E..
- É só uma dança, certo?!
Tocou-a no ombro. Na cintura. Encostou-lhe o rosto e roçou-lhe a semi-barba. Sentiu seu hálito de hortelã, aquele mesmo da canção do Chico. Ele puxou-a para perto, bem perto, tão perto que os seios dela se comprimiram. Prazer. Abraçou-a. E ficou quieto, apenas respirando o mesmo ar dela. Submersa, ela ofegava e cedia e tirava-lhe o ar em profundas aspirações.
Dessa vez não se lembra de como chegou ao banheiro, sente apenas seus órgãos exigindo espaço e uma dor irritante na nádega direita. O papel havia acabado, afinal, quantas horas já haviam passado para que tivessem conseguido acabar com 60 metros de papel branco enrolado? Deita seu corpo na porta e encontra-se com o espelho. Seus olhos estão miúdos e definidos como sinais de subtração. Mas naquele lugar o tempo parecia correr às avessas. Ainda que estivesse presente, via-se subindo os 4 lances de escada. Ele dissera: - Não é traição, nem mentira. Ah... ela lhe atirara toda a mobília. Prejuízos da matéria! -Vá benzinho, caso ainda queira conservar o resto desse seu pau público! Ao diabo às aliterações! Ao diabo! Ela chorou pela desonra, pela tristeza, pela raiva e pelo medo. Chorou pela saudade e pelo arrependimento. Chorou por si e pelos outros. Chorou pela flores, pelas crianças e pela fome. Até que não chorou. Guardou o riso sagrado e aí foi só cansaço.
Agora estava presente e viu-se com a testa encostada no espelho. Essas são as curvas que moldam minha mulher. O contorno do receptáculo divino da minha sensualidade. Meu sangue. Quisera ser Alice e transpor o espelho, mas ainda não era flor. Saiu do banheiro.
Por algo bem menos abstrato que o amor, correu em direção ao cavalheiro da dança que já amparava-lhe com os olhos. Enquanto tentava alcançá-lo começar a tocar uma canção com nome de mulher. Toda uma orquestra para Eleonor. Talvez depois seria a vez de Lucy. Tocou-o. Por Deus, assim O era antes de aparecer no banheiro? Que entrega era aquela da sua mente?! Porque o prazer significa adorar. Rendeu-se de olhos fechados.
Em seu próprio estágio de consciência ela está com a face encostada num azulejo branco com flores amareladas. Está com os braços num ângulo de 180 graus abraçando um mundo de delírios. Como fizera para estar naquele cômodo 2x2 com um cheiro exorbitante de eucalipto?! Está tonta, mas não como fora outrora. -Tonta! Por que mantem essa postura? O que quer com seus risos estridentes? - Tonta... o que ele diria agora se a visse sem blusa no banheiro de outro homem? Um outro macho.
-Ei, 'tá tudo certo aí dentro?
Diabos! Ela já quase acreditava que as perguntas dele eram propositalmente filosóficas.
- Minha mente é um banheiro.
- Você não está bem mesmo. Quer ajuda aí dentro?
Não se organiza o caos do coração - pensa.
Ela abre a porta. Atonitamente ele olha para os seios dela descobertos. Estende as mãos para tocá-los. Há um universo entre esse toque, ele sabe. Ela sorri fechando os olhos e com uma graça natural diz:
- São pequenos.
O universo que separava a mão e o toque se trinca.
- São perfeitos.
A partir daí tudo é pictórico demais. O amor que fizeram foi uma série de concessões. Partilharam. Foram o pó.
Ela descera ao mais ínfimo lugar e sentira a lama em seus olhos e boca. Agora emerge no Gozo de uma Flor de Lótus.


"Ave
O desejo de carne
Ave
A libertação do Espírito
Ave
A realização do Ser
Ave
O mistério de ser."




sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Blues.

Ele despiu minhas roupas do corpo de uma outra mulher.
Eu não queria que ela perdesse calor para a noite, então emprestei-lhe o que usava para proteger o meu corpo. Sinceramente nunca cheguei a crer que ao som de um blueslíquido ele é quem protegeria aquele corpo pequenino e tão claro.
É só uma tempestade - me disse há um tempo. Que longa tempestade, então eu digo.
Não que tempo seja relevante quando falamos de amor. Ele é indubitavelmente eterno. Eu o esperarei, ou então será ele quem me esperará. Enquanto isso seremos como cobertas que se sacodem quando o vendaval atinge o varal em nosssos quintais.



Nunca mais. Nunca mais.

Insanidade.




Aéreo na
Rua
Quis um peixe
Quis o mundo
Pediu uns cigarros
Ganhou corpo de alcool
Não era loucura -
não para uma Flor.
Não havia frio
porque também não havia covardia
Boca de coração
com carinho nos pés
Não; não me deixa
Porque quero seguir errante.